AFERROLHADA NA MORTE!
A estas horas da noite vai-se fazendo uma revisão breve dos últimos acontecimentos e chega-se sempre à mesma conclusão...Infelizmente! O país está rolando numa cadeira de rodas para um desenlace fatal. Não é ser pessimista é o que se ouve e vê. Muitas coisas do arco-da-velha aconteceram nestas últimas semanas. Tantas que já nem sei dar conta. Também não quero. Mas resumidamente, não resisto a mais uma chamada de atenção. E é o Silvino é o Cruz é o Renato é o Castro é a Júlia é o Vara é o sucateiro (tiraram-lhe o nome) são as lacunas dos ministros é o malhar no contribuinte é o Zé a sofrer as asneiras são o cadáveres encontrados, é tanta coisa arrepiante e vil que dá que pensar a estas horas da noite. E sabem porquê? Porque é só e unicamente a tragédia a bater em nós. Mas parece ser a realidade. Que desaforo! De tanta coisa que foi notícia, perturbou-me grandemente o caso do cadáver de uma senhora que vivia num prédio cheio de gente e ninguém quis saber. Há nove anos fechada em casa, isto é, aferrolhada na morte! E consome-se o pensamento já tão enevoado a repensar o caso. Com tantas provas anuladas pela sua ausência e que lhe iam bater à porta incluindo a sua pensão metida numa caixa de correio a abarrotar porque não era aberta há nove anos, e a transbordar porque já sem espaço... A senhora que deixou de ser vista por todos e ausente até da própria família, dos vizinhos (apenas uma amiga se interessou mas sem resultado) Até a polícia rejeitou qualquer auxílio com explicações absurdas para um caso tão evidente! Só houve um elemento, este por de mais conhecido pela sua sede de açambarcar e por se revelar há muito o maior facínora da entidade pública que, apelando à sua experiência, resolveu solucionar apenas o problema material. Aqui não se puseram obstáculos. E pôs a casa em hasta pública. Já adivinharam, não é verdade? Exactamente, as Finanças. E com isto, cada vez mais, a sordidez deste caso, a tomar maior vulto! E, que fazemos nós? Nada. Deitamos as mãos à cabeça, gritando os maiores impropérios numa atitude que queremos de desabafo apenas. - "As portas estão çarradas", como diz, Fernão Lopes, na sua Crónica. - Então arrebentai-as! Que podem matar o Mestre!" Mas neste caso concreto, a lei não permitia rebentar com a porta ... Porquê? Se todos os dias se atropelam as leis!! Poderei pois acrescentar que se chama a isto, desprezo pelo próximo! Também se chama acomodação. Chama-se ausência de valores, a tal mediocridade num país medíocre. Que anda a passos de procissão com uma lanterna acesa mas às cegas para encontrar o caminho. Todos cegos numa terra onde só quem tem olho é Rei! Também se pode considerar puro medievalismo! Estamos, a Passo de Caranguejo, como revela o livro da sabedoria e com este título, de Umberto Eco, a caminho da Idade Média. E vejam que tudo está acontecer. As ciências ocultas, a Guerra do Médio Oriente, a desvalorização do indíviduo, a falta de privacidade, a política educacional, os media que transformam os criminosos em heróis com tanta notoriedade com que enchem as páginas dos jornais e nos gritam aos ouvidos na TV, os Bancos que insuflavam a ingenuidade de quem a eles recorria e daí as graves consequências , as fraudes dos banqueiros, e ainda e sobretudo, o medo e a vergonha que tomaram conta de um povo indefeso. E quem nos governa? E quem governa o mundo?!... E os charlatães? Falo dos cartomantes dos quiromantes e outros que tais, que servindo-se da aflição das pessoas que, não obtendo resultados imediatos para os seus difíceis problemas, a eles recorrem e, nessa forma enganosa, pensam obter resultados. E estes trafulhas e habilidosos ainda têm direito e honras de talk show! Por isso, diz Umberto Eco, que os cientistas não devem ir a este tipo de programas se não quiserem ser identificados como aqueles. Depois, vem o futebol a tentar aquietar as massas, insuflando jogos quase diários, e o fado da Mariquinhas. Vem a comédia grosseira de um Big Brother que acarreta multidões e finalmente, muito perniciosa, a Internet, a perturbar as razões, perigosamente nos jovens, que vivem o mundo virtual tão intensamente que quase esquecem a realidade. Uma coisa é certa . A comunicação é fortemente redigida. E a oralidade adormece durante horas seguidas... E agora regresso ao tema tenebroso. Pobre senhora tão isolada do mundo! Da família dos vizinhos da autoridade da Segurança Social! Abandonada à sua sorte até ao fim! Porque o único ser que a acompanhou até à hora da morte terrivelmente silenciosa durante nove anos foi o mesmo que a seguiu não a deixando partir só. O seu fiel cão e companheiro das horas mortas que igualmente se encontrava cadáver, ao seu lado.
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