Quase próxima de um novo dia. Pouco falta para a meia-noite. O encavalgamento perfeito a combinar-se numa fusão quase dúbia entre a lua e o sol. Nós também por cá vamos vivendo nestes saltos de cavalo desenfreado que são os dias a passar. Por esta hora, pensa-se e medita-se em muita coisa e na efemeridade da vida! Deixa-nos ver tudo mais claro mais evidente mais proporcional a todas as coisas. Isto porque noutro dia tive uma dor. Ontem era tudo tão natural. Era só mais uma dor. Era só mais um estado febril. Entregava-me aos cuidados de meu marido, médico, e descansava. Nada de mal acontecia. Sempre confiante. Desligava tudo em mim porque lhe pertencia. Sem me lembrar que as mudanças acontecem. A vida é cheia de mudanças. Até isso ignorava.
...Naquela madrugada a dor persistiu. Uma dor abdominal que me deixou em pânico porque acompanhada de temperatura alta. O quadro começou a alterar-se. No silêncio ouvia as pancadas do coração. Sem querer alvoroçar ninguém. Aguentei até entrar num estado de torpor tal que comecei a sentir-me bem . Divinamente bem! Adormeci. Pesadelos, hospital, o médico a assistir que conhecia muito bem... E eram 2 horas da tarde quando o telefone me acordou. Um dos filhos a saber de mim e outro e outro... Depois, o Hospital da Luz, a morosidade dos exames , das análises das consultas antes e depois, o cansaço e o alívio e o último olhar, tentando auscultar o sofrimento dos outros que lá ficaram, esperando. Finalmente o regresso a casa com todo o conforto. O meu sacrário aberto. Que bem me senti! O facto de estarmos tão agarrados à vida, leva-nos ao vil egoísmo de não pensarmos na morte. Que absurdo. É a única certeza certa. Porque todo o resto são apenas certezas incertas. Os dias é que nos vão dando pretextos para assegurarmos algumas certezas. A realidade ajuda-nos a defini-las. E esta capacidade que temos de vermos a vida a fugir-nos, sobretudo quando, inesperadamente nos acontece alguma coisa e pensamos o pior, é aquela que tão maravilhosamente foi expressa por João de Deus quando diz: "A vida é o dia de hoje a vida é ai que mal soa a vida é sombra que foge A vida é nuvem que voa..." Ele sabia. Nós também vamos sabendo... A efemeridade da vida. São duas horas da manhã. E já é outro dia.
Sem comentários:
Enviar um comentário