Meti-me nesta espécie de aventura pela primeira vez. Levei o carro à lavagem automática. Enfiei-me numa fila de carros que estacionavam e aguardei. Mas, olhando o túnel lá ao fundo, o meu pensamento encolheu-se...Que monstruoso. E logo a consequente claustrofobia de que todos sofremos um pouco, tomou conta do meu sistema nervoso. Quis recuar, mas além de já se tornar impossível, devido ao espaço exíguo, verifiquei com terror que já não era a última da fila. De facto, uns cinco carros ou mais se tinham já arrumado e aconchegado ao meu. Como não havia hipótese de fuga, comecei a brincar comigo própria para não enfiar pesadelos. E dizia, quase convencida -
Prá frente Isabel e não sejas, piegas!´Assim, lá fui avançando e contando os carros à minha frente que por sinal andavam mais depressa do que eu pretendia.Também reparei que era o único elemento feminino da fila. -
paciência, Isabel e acalma-te! Entretanto, mandei uma carrada de nervos dar uma curva até Monsanto. Mas eu era lá capaz de uma descontração assim. Tudo cá por dentro chocalhava... Chegou finalmente a minha vez. Lembrou-me logo, Gil Vicente: Rezada está a sentença..." Instintivamente, fechei a janela para não levar com a água na cara. A agulheta disparava com ímpeto feroz sobre o veículo como se nunca se tivesse banhado. Logo a seguir, veio um indivíduo com uma vassoura entrapada e encharcada em shampoo que o passando pelos vidros , me toldou a visão. Pareceu-me que tinha ensaboado os meus olhos. Fiquei bloqueada! Mas, como também sou de resoluções rápidas, abri a janela e gritei:-Olhe que é a primeira vez que me meto nestas andanças. O que faço agora? Ao que o empregado responde, olhando o vazio à volta...- Não tenha problemas. Destrave o carro. Ponha agora em ponto morto. (por esta altura já estava meio morta por dentro) E agora? -pergunto, numa aflição. -Agora, o resto é com a máquina! E foi numa dialéctica perfeita entre mim e a máquina, que seguimos viagem...! Eu, completamente abandonada à sorte a pensar que atravessava, no momento, o Inferno de Dante, depois do fogo apagado. Entretanto, aquela monstruosidade esponjosa, aproveitando a escuridão, começa a expandir velhacamente a sua sensualidade, cobrindo-me, digo, o carro, por cima por baixo dos lados ...Ó Inferno maldito como poderei sair daqui? A sacudir-me em pânico como uma galinha? Já sentia água por todos os lados.
De repente, uma trave, travou-me a saída. -estou arrumada, pensei. Querem ver que isto encravou e fico para aqui esquecida, enquanto os outros, num choque em cadeia, vêm ter comigo? E aninhar-se nesta arca de Noé?! E, cogitava enevoadamente, quando a trave começou a elevar-se, com uma graciosidade tal que me deu para trautear uma música em voga...Apenas para desanuviar. Depois a luzinha da esperança.- quando vir a luz verde, arranque! E lá vou eu com a velocidade cometida pelos nervos completamente em ebulição, pensando. -foge que ainda te apanham! Ao mesmo tempo que o rapaz gritava com um pano na mão. -Então a senhora não que que lhe enxugue o carro? Travei parei e recuei. Lá o limpou com um pano sebento, mas e apesar de tudo, deixei a gorgeta.
Depois arranquei feliz! E, pensei -assim é que se fazem as heroínas do momento! Caramba. Que grande feito!
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