quarta-feira, 4 de maio de 2011




DE OLHOS POSTOS NA NOITE...







Às vezes gosto de espreitar a noite. Para olhar o céu as estrelas algumas constelações e mergulhar no Universo... E ponho-me a pensar. A noite pisca nas luzes que iluminam as redondezas. Numa vontade indomável dou um salto até ao fimamento. Só para presenciar como se habita a terra... Dependurada na lua onde o corpo melhor se acomoda, anoto e vejo as estrelas em correria desenfreada...Quase a cair, componho a curvatura e lá vou baloiçando nesta curiosidade mórbida com que os terrestres costumam entreter as suas razões.




....Às vezes gosto de espreitar a noite e ser estrela lua ou constelação... Ontem fui espreitar...Não cheguei ao firmamento. Alguma coisa me chamava à terra. Ruídos gritos discussões, um alarme bem audível . Chegava o camião do lixo. Não resisti. Pois se olho lá para cima com tanta naturalidade por que não olharia o que entrava mais perto dos meus olhos? Grande discussão. Esfreguei as mãos de contente. Caramba, vai haver sarilho de vez! Chamei o meu neto, Ricardo que estava comigo para assim gozar de companhia. Espreitámos discretamente, quais crianças em alvoroço. É tão raro assistir a uma natural pancadaria...Descontrai e fica-se bem. Assim, aguardámos. Um cavalheiro travava-se de razões com os respectivos funcionários da Câmara por qualquer situaçao que não pudemos apurar. Mas forte era a razão do cavalheiro. Só se viam os gestos alterados e os vozeirões a dizerem de si. Havia uma certa dissonância nas vozes que resultava em cheio numa opereta ligeira...


Avançava um, recuava o outro, uma boa imagem do fanfarrão vicentino...Ameaças, murros no ar, saltos imprecisos...E, quando pensavávamos a cena bestial como apoteose final... O cavalheiro desiste e foi-se, enquanto o outro arremetia ao lixo e não só... De repente , quase de repente...Gosto de perscutar a noite . Comecei a esfregar os olhos de incredulidade. O meu neto só dizia: Não acredito! Não era propriamente o pedrisco ou a chuva que caía... Todos os três, os do lixo, um deles voltado para a frente dos prédios, fez do gesto, a chuva característica das mixões espontâneas! Uma abertura brejeira das persianas foi corrida com suavidade... Depois o desabafo...Chegámos a isto! (quem os manda espreitar? Dirão...) Olha agora. Eu que gosto tanto de olhar a noite de elevar os olhos ao firmamento!




Se ao menos o meu interesse recaísse num Manneken Pis a tentar apagar algum fogo...Mesmo sem o bronze que o caracteriza, ainda vá que não vá... Agora assim tão em bruto, confesso a minha decepção, pois já nem o céu pode caber nos olhos da noite nem tão pouco naqueles, que involuntariamente, a perscutam na sua ingenua curiosidade.

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