QUANDO O VAZIO É A NOITE DO VAZIO
Acende-se a imensa chama e o sol brilhará até queimar! Mas as aves continuarão voando e a frescura das flores das árvores do gotejar da água ao jorro de outras águas que descem pelas montanhas, dos longes da distância e da paisagem que o mar separa e até dos caminhos desertos e coloridos, nos falarão mais alto. O fulgor da Natureza brilhará em cada rosto. À sombra o homem pensará. E a pomba branca que inesperadamente surge com um ramo de oliveira preso no bico, será talvez a nota mais verdadeira na mensagem de paz que acabamos por sentir mais fundo. Depois o pôr do sol o cavalgar cadenciado no areal as aves a perderem-se no infinito num adeus de, até já, e tudo à volta irá perdendo a cor a luz o canto a imaginação e o sonho acabará no areal deserto e no marulhar das ondas onde o encontro com as sereias no seu canto inefável e misterioso será, na espera infindável de Ulisses, o seu maior tormento.
Cada vez mais se pensa e a vida cansa-se de tanto pensar. Merecerá a vida esse cansaço? Merecerá a vida esse pensar? Tudo flutua entre a terra e o céu...Merecerá a vida esse desgaste? Merecerá a vida um verso meu? Não sei. Já nada sei. Palavras que se não dizem, morrem na alma; o vento desgrenhado, leva-as em vão e muito embora a tarde seja calma, a vida não merece assim tanta atenção. Cansa-se o gesto a dor o pensamento o corpo a maré baixa basta de Orfeu, basta de dança...Párem! Que me canso eu. A vida é este cansaço de mais nada saber dizer. Ou não querer dizer?
Mas sei que tudo merece ser porque há vida. As interrogações são provocadas por um vazio momentâneo. Filosofar sobre a existência é forte causa. Se já vivemos grande parte da vida e fomos felizes. Tão felizes...
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