sábado, 2 de julho de 2011












Tenho o passado nas minhas mãos. Ou melhor. O passado e o presente. Não poderei agarrá-los ao mesmo tempo. Que complicação seria! Assim, na mão direita, agarro o presente, com a outra mão, e já de punho fechado, não me vá fugir, agarro o passado. Sem passado, nada se entenderia agora do presente. E terá que se ir vivendo para nos irmos orientando neste ciclo interminável..E, se nos interrogarmos, o tempo cada vez se torna mais circunscrito a um tempo único. Porque o futuro já é amanhã, que será também presente e nesta rota quase infernal, igualmente passado. Como toada, este relógio cerebral acelerado a saltar de degrau em degrau, sem olhar as brechas que vai deixando pelo caminho ... De facto, o tempo corre célere, mas não se confunde desta maneira tão atroz, já que o tentamos conduzir com alguma quietude e a bom termo, para ser depois e apenas recordação. Às vezes, dá a sensação que o tempo se interliga se alarga e se desvanece. Depende da visão idade e sentir de cada cidadão. Mas, agarrá-lo num só tempo, só através das fotos que nos dão essa visão imperfeita. O coração tem medidas certas. Ou então , neste jogo de palavras, poderemos, imaginando, agarrar um tempo inteiro. E, lá se vão lançando e trilhando palavras, na ilusão das páginas em branco para as irmos saboreando.
Ai se nos fosse possível acabar com a contagem dos dias... Amordaçar o tempo, encaixotá-lo ou enterrá-lo em qualquer canto da casa. Imaginem o que não seria de gozo eterno! Desapareceriam os trezentos e sessenta e cinco dias do cansaço da nossa existência. Apagados, que seriam os doze meses ,terminariam os aniversários, e nesta lógica de ideias, os dia da semana deixariam a contagem da carestia da vida. Um assombro! Genial! Quanto às estações. O Inverno e o Outono jamais nos ensombrariam a existência, e o Verão, num sorriso contínuo e florido , dava-nos o colorido de uma juventude permanente . As primaveras de verão.
Mergulho de novo nas palavras, e deixo a imaginação de mãos dadas com a fantasia para continuar o nosso devaneio. Uma forma de se ser feliz. Mesmo que seja numa nota só... Porque as palavras são o nosso melhor alimento nos dias que passam. Como eu gosto de as manobrar, perto ou à distância , com realidade ou fantasia, com raiva ou amor, com tristeza ou alegria. Assim, junto-as, afasto-as, perco-as, encontro-as, para melhor vibrarem em mim. Todo o tempo amarrado nas palavras que depois se soltam e gostam de acontecer. Como agarrar um telecomando a fazer zapping na minha alma em desejos incontidos para vibrar. Assim, lanço as palavras em liberdade , voando nos meus olhos ou nos peixes verdes borilados de estrelas e de mar. E serão horizontes com sabor a sal. E serão ondas ,carregando algas e sargaços, a prender distâncias.
...Fiz a cama com lençóis de nuvens brancas, embrulhadas nas palavras e adormeci. E tudo ficou preso na minha solidão. O tempo também...

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