Hoje, ao cair da tarde, um familiar perguntava-me através do telefone como passava. No momento, lembrando-me de uma dor incomoda no joelho direito, ia num arrepio quase involuntário, lançando ao ar a estafada perifrástica, que abomino, :
"Vai-se andando!" E, antes que a expressão fosse ouvida consegui mantê-la equilibrada no pensamento e suster o
desabafo. Para rematar com uma...
auréola de felicidade momentânea." Estou óptima! (a Deus graças!)
Mas ... "Vou andando" "vai-se amdando" e ainda como remate ,algumas vezes, a acrescentar-se. "É a vida! Que remédio..." Não se aguenta!
Sempre foi assim. Respostas com queixumes habituais que tomaram de assalto o povo português.. Povo triste. Povo queixoso. Mas avança-se para a vida.
O queixume fragiliza-nos, amolece-nos e para cúmulo resiste às intempéries! Sem conotações políticas... Faz parte da nossa cultura já enraizada na época medieval! Somos de facto um povo "queixinhas" mas também de grande conformismo. ... Como a senhora que desabafava, na rua com a amiga que encontrou:- Veja a minha sorte. Com três filhos e agora sem nenhum. Um casou; outro foi para o estrangeiro e o outro foi viver para o norte! Já viu, fiquei sem filhos. A outra ouviu e como prova de consolação, rematou...-"Olhe, é a vida!" E disparou, passeio fora, apressada, para lugar incerto. A senhora em questão, essa ficou a olhar para o vazio com lágrimas nos olhos.
De repente, recordo José Gil, que no seu livro "Portugal, Hoje, O Medo de Existir, dizia acerca do "queixume".
" ...A queixa constante do "país" impede o indíviduo de exprimir ao outro alegria, prazer de conviver e de pertencer à mesma comunidade. É como uma espécie de censura consciente: como manifestar ao outro, e dele esperar o contrário do que se diz ser o sentir e o viver de toda a gente: Isto poderia levar ao estilhaçar total da sociedade, criando-se um país de misantropos (o que é impensável!) Por isso ao praticar o queixume, cada um de nós está a criar um laço de conivência com um discurso que nega qualquer laço possível com os outros. No momento em que se está desenvolvendo esse discurso, estão-se paralisando os gestos e os corpos que deveriam encontrar-se uns com os outros numa comunidade afirmativa de afectos. E, no entanto, é esse mesmo discurso que nos resta para nos manter juntos e estranhamente coesos. Coesos, sem realmente o ser, atados uns aos outros, por uma espécie de convivência forçada que se pretende libertadora , e que, quanto mais perdura, mais aprisiona".
Sem mais comentários...
isabelmonteiro
Mas ... "Vou andando" "vai-se amdando" e ainda como remate ,algumas vezes, a acrescentar-se. "É a vida! Que remédio..." Não se aguenta!
Sempre foi assim. Respostas com queixumes habituais que tomaram de assalto o povo português.. Povo triste. Povo queixoso. Mas avança-se para a vida.
O queixume fragiliza-nos, amolece-nos e para cúmulo resiste às intempéries! Sem conotações políticas... Faz parte da nossa cultura já enraizada na época medieval! Somos de facto um povo "queixinhas" mas também de grande conformismo. ... Como a senhora que desabafava, na rua com a amiga que encontrou:- Veja a minha sorte. Com três filhos e agora sem nenhum. Um casou; outro foi para o estrangeiro e o outro foi viver para o norte! Já viu, fiquei sem filhos. A outra ouviu e como prova de consolação, rematou...-"Olhe, é a vida!" E disparou, passeio fora, apressada, para lugar incerto. A senhora em questão, essa ficou a olhar para o vazio com lágrimas nos olhos.
De repente, recordo José Gil, que no seu livro "Portugal, Hoje, O Medo de Existir, dizia acerca do "queixume".
" ...A queixa constante do "país" impede o indíviduo de exprimir ao outro alegria, prazer de conviver e de pertencer à mesma comunidade. É como uma espécie de censura consciente: como manifestar ao outro, e dele esperar o contrário do que se diz ser o sentir e o viver de toda a gente: Isto poderia levar ao estilhaçar total da sociedade, criando-se um país de misantropos (o que é impensável!) Por isso ao praticar o queixume, cada um de nós está a criar um laço de conivência com um discurso que nega qualquer laço possível com os outros. No momento em que se está desenvolvendo esse discurso, estão-se paralisando os gestos e os corpos que deveriam encontrar-se uns com os outros numa comunidade afirmativa de afectos. E, no entanto, é esse mesmo discurso que nos resta para nos manter juntos e estranhamente coesos. Coesos, sem realmente o ser, atados uns aos outros, por uma espécie de convivência forçada que se pretende libertadora , e que, quanto mais perdura, mais aprisiona".
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